Metanóia

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Metanóia

O que dizer?

Talvez tenha sido isso mesmo que eu tenha me tornado.

Um efeito cascata.

Daqueles que começam pequenos, quase imperceptíveis, mas vão batendo nas pedras, moldando as margens, alterando o curso da água e, quando se percebe, já não existe mais o mesmo lugar.

Eu deveria me orgulhar?

Não.

Já passei dessa fase.

Orgulho é coisa de quem ainda precisa convencer alguém de que sobreviveu.

Eu deveria te ensinar alguma lição?

Também não.

O mundo já está cheio de gente tentando transformar a própria confusão em manual de conduta.

Então, que diabos estou fazendo aqui?

Talvez só tentando colocar em palavras aquilo que normalmente se esconde atrás de uma rotina bem vestida.

Hoje, quando o despertador tocou, eu não tinha um grande motivo para levantar.

Mas ele tocou.

Eu levantei.

E fiz o que precisava ser feito.

Nem tudo tem propósito.

Nem tudo carrega uma grande revelação.

Às vezes, a disciplina é só a forma mais silenciosa de não desmoronar em público.

O prazer morre exatamente onde nasce o orgulho do outro.

E, principalmente neste país, parece viver melhor quem não enxerga o que está bem diante do próprio nariz.

A grana engana de um jeito doce.

Ela compra conforto, aplauso, companhia, distração.

Mas não compra lucidez.

E, em algum ponto da caminhada, alguma coisa te venceu.

Talvez não tenha sido a falta de dinheiro.

Talvez tenha sido justamente o excesso de anestesia.

A minha visão pode parecer pessimista.

E eu nem vou cometer a vulgaridade de chamar isso de realismo para tentar parecer mais inteligente.

Você sabe.

No fundo, nós somos especialistas em mentir para nós mesmos.

Montamos versões melhores da história.

Damos nomes bonitos para velhos vícios.

Chamamos fuga de recomeço.

Chamamos carência de intensidade.

Chamamos repetição de destino.

E seguimos.

Sempre ocupados.

Ocupados o bastante para não enlouquecer.

Ocupados o bastante para não ouvir o barulho que existe quando tudo fica em silêncio.

Não há nada de errado nisso, meu caro.

Desde que, quando eu digo ocupado, você entenda exatamente o que estou querendo dizer.

A cena me comove.

É quase bonita a forma como você mente para si mesmo.

Doces lembranças.

Pequenas promessas.

Um novo plano.

Novas pessoas.

Outro cenário.

A mesma conclusão.

No fim, quase ninguém quer mudar.

As pessoas querem apenas uma versão mais confortável da própria prisão.

A metanoia não acontece quando você troca de cidade, de roupa, de companhia ou de discurso.

Ela começa quando você perde o gosto pela mentira.

Quando o café fica amargo.

Quando a ilusão perde o perfume.

Quando você finalmente entende que algumas coisas só mudam quando se corta o açúcar.

#vicenoir